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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Sweep - Zoom in e Zoom out

Esta semana li um artigo interessante em um jornal online de literatura. O autor discorria sobre contos e demonstrava a utilização da técnica do sweep.

O termo sweep, em inglês, significa, entre outras coisas, uma dimensão mais larga e abrangente. Nos contos o autor não tem espaço para trabalhar exaustivamente um personagem ou um tema. O foco tem que ser preciso e imediato. Quanto mais curta a história, mais rápido o leitor tem que conhecer o enredo, o papel do personagem principal e o que ele deseja.

A técnica do sweep dá a oportunidade ao escritor de acrescentar em poucas linhas essa dimensão e profundidade que o personagem ou a história necessitam. Em um simples parágrafo o leitor pode conhecer o que realmente está por trás daquele enredo e o impacto que isso causa na história e no personagem.

Um exemplo prático seria uma história que envolve um ritual indígena. Digamos que um certo artefato seja usado nesse ritual. O autor poderia em um parágrafo usar um sweep para explicar a importância desse artefato para os indígenas e como ele tem sido usado de geração em geração, adicionando a visão da cultura nativa. Depois, ele retorna novamente para a história atual. O escritor aproveitou para criar uma dimensionalidade àquele enredo que fará com que o leitor compartilhe de forma mais profunda a experiência do personagem naquele momento.

O sweep pode ser praticamente visualizado como um zoom. No momento em que ele acontece o escritor dá um zoom out, ou seja, afasta a cena e traz a câmera para abranger o cenário como um todo. Retornando à história ele faz um zoom in, focando o enredo principal.

O sweep pode acontecer em qualquer momento da narrativa, tanto no começo quanto no meio. O importante, entretanto, é observar a sua introdução e saída. Quando no começo do conto o cuidado com a introdução não é tão essencial, mas, se ocorre no meio, o sweep tem que ser escrito de modo a fazer parte da história. Um dos maiores riscos de usar essa técnica é o perigo da divagação e generalização, incorrendo em distanciamento do enredo principal.

Criando aqui um exemplo rude da cena do ritual indígena um sweep seria algo assim:

"O cacique Capixaba se aproximou da cuia ritual, enquanto era observado pelos outros guerreiros dispostos ao seu redor.


Para os índios guajajaras aquela cuia representava a união dos deuses da floresta e dos céus. A água da chuva que era colhida nela representava a bênção dada por Huimatã. A cuia ficava sempre no centro da aldeia e quando transbordava, suas águas eram acolhidas pela Mãe Terra, consumando a junção dos deuses. Era então o momento da caça, da pesca e da colheita, todos abençoados por aquela união divina. A cuia era, para aqueles índios, um símbolo sagrado passado de geração a geração.


Capixaba pegou a cuia com as mãos e elevou-a aos céus."

Como falei acima esse texto é só um exemplo a grosso modo da técnica do sweep. O que vai acontecer com a cuia adquire uma importância bem mais impactante quando o leitor sabe que aquele objeto faz parte de uma cultura e tradição enraizadas. O sweep engrandece o conto em poucas palavras.

Até a próxima
Stanze

sexta-feira, 12 de março de 2010

Inspiração

Esta semana eu passei muito tempo pensando nessa palavra. Na verdade eu passei a semana procurando a dita cuja e o que ela poderia me trazer para o artigo de hoje. Procurei e procurei até que resolvi abrir os olhos. E então eu achei! Ela estava o tempo todo à minha frente, me acenando com os braços e criando ruídos no meu cérebro: INSPIRAÇÃO.

O que é inspiração? Quando inspiramos colocamos ar para dentro do organismo. Deveria ser ar puro, se bem que nem sempre é possível. A inspiração literária é isso mesmo: colocar para dentro do cérebro idéias novas, enredos, personagens, um mundo inteiro.

Mas de onde é que vem a inspiração? A grande vantagem da inspiração artística ser feita de idéias é que ela não precisa somente ser respirada. Ela pode também ser sentida, ouvida ou falada.

Pegue um jornal, procure uma notícia interessante e construa sua própria história. Sente por alguns instantes em um banco de praça ou em qualquer local em que passem pessoas e procure ali por um personagem especial. Observe as roupas, os trejeitos, o modo de andar. Imagine o que elas carregam nas bolsas, nos sacos, nos bolsos. Aprecie uma árvore antiga. Quantas pessoas já se apoiaram naquele tronco? Há palavras escritas nele? Que emoções elas sentiram naquele exato momento?

Lembrei-me de um exercício durante um workshop em Veneza. Nosso grupo de escritores saiu do burburinho da zona turística e foi para o bairro judeu, perto da estação ferroviária. Durante uma hora não podíamos falar uns com os outros. Teríamos que utilizar os outros sentidos para criar idéias. Fechei os olhos e deixei que os ouvidos e o nariz trabalhassem por mim. Senti o cheiro de fumaça e, estando ali num bairro judeu, associei a coisas ruins. Mas também ouvi o barulho da rua e tive maravilhosas sensações de vida e alegria. O suave deslizar dos remos das gondolas na água e o cantar dos gondoleiros. Abrindo os olhos apreciei o festival de cores das roupas penduradas nas janelas, tão típico das vilas italianas e tão próximo do Nordeste brasileiro.

Dessa experiência escrevi um pequeno conto, publicado na Letterpress de Brandi Reissenweber, volume 4, número 2, de fevereiro de 2006.

O Gondoleiro
(conto originalmente escrito em inglês, traduzido aqui para o português)

Um canto estreito, uma curva para a direita revelando a magnitude do Canal Grande. Eu observo as feições deliciadas dos turistas japoneses que conduzo na minha gôndola. Eu repito as mesmas fábulas sobre Lord Byron e Casanova que eles acreditam ser verdadeiras. Quando estou de bom humor ou um dos meus passageiros é uma dama bonita eu lhes mostro minha voz e lhes canto algumas músicas italianas.

Dias após dias tantas pessoas diferentes sentam na minha gôndola que não as vejo mais como pessoas. Da mesma forma como já não vejo Veneza como uma cidade. Sua história verdadeira se dissolve entre as inúmeras lendas, as pessoas reais estão sufocadas pelos milhões de turistas.

Quando meu pai me ensinou a conduzir a gondôla pelos canais estreitos eu amava o que fazia e decidi que era aquilo que queria continuar a fazer pelo resto da minha vida. Eu me sentiria rodeado por pessoas de todos os cantos do mundo e lhes mostraria minha cidade, minha Veneza, com orgulho e entusiasmo.

Agora, vinte anos depois, ainda continuo jovem, mas os sonhos que me guiaram naquele primeiro passeio com meu pai já se foram. Eu perdi minha cidade para o mundo, para os estrangeiros que, com suas línguas estranhas, tornaram-na tão não-italiana. Eu comecei a acreditar que os canais cheiravam mal ou que os pombos, embora bonitos, são abusivos e sujam tudo. As fábulas que nunca lhes contei estão se tornando verdade para mim.

Eu conduzo minha gôndola da mesma maneira como sempre o fiz, eu canto de vez e quando e continuo contando histórias mas tudo é diferente agora. Dizem que um dia Veneza irá desaparecer nas águas. Esse dia já chegou para mim. Eu posso sentir minha alma esmagada sob os passos daqueles milhares de pés estrangeiros e espalhada nos sons daquelas milhões de línguas.

E Veneza, a Veneza dos meus sonhos, há muito perdida nas ondas dessas estranhas culturas.

Até a próxima

Stanze