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sexta-feira, 3 de junho de 2011

De volta à ativa

Olá amigos

Após um período de briga com o blogspot e sem conseguir visualizar minhas próprias postagens achei que o Inspiracionando estaria sem muito futuro por aqui. Recentemente instalei o Google Chrome e descobri que a minha briga deveria ter sido com meu próprio browser!!! Mas enfim eis-me aqui online!

Estar de volta à ativa também significa que estou investindo mais em minha arte literária. Decidi que se não for agora não vai nunca mais. Estou dedicando tempo para terminar meu primeiro romance e já tenho idéias para mais dois. Lancei um blog do meu livro para que os que quiserem possam acompanhar meu processo criativo e minha luta com meus personagens e comigo mesma! http://ojardimdedeuslivro.blogspot.com

Nessa montanha russa criativa estou revendo várias técnicas literárias e realizando alguns exercícios que para mim servem de "aquecimento" antes de escrever cada capítulo do meu livro. Um dos meus muros -  às vezes alto e às vezes baixo - são as descrições, tanto de personagens quanto de locais ou cenários. No livro Description and Setting, Ron Rozelle observa que há dois tipos de ficção, a literária e a popular. A classificação não é discriminatória, apenas observatória. Na verdade, existem grandes autores em ambos os gêneros e vários leitores que gostam dos dois tipos (eu, por exemplo).

Em se tratando de descrições, o leitor da ficção literária não se importa com as longas passagens descritivas e os detalhes minuciosos que o autor lhe dá, pois está mais interessado em ver como a hitória se desenvolve a partir desse caminho longo e vivo que lhe é apresentado. Já o leitor da ficção popular está mais envolvido com a trama, dando pouca importância a muitos detalhes.

Literária ou popular toda ficção possui descrições e cenários que ajudam o leitor a se situar dentro da trama. Uma das sugestões para desenvolver a capacidade descritiva é ler autores diferentes e observar como eles transformam o ambiente em seu aliado no desenrolar do romance ou conto. Outro instrumento é aplicar os cinco sentidos na descrição de um ambiente.

Termino esta postagem de hoje com dois exercícios interessantes que facilitam o desenvolvimento de uma boa descrição.
1-faça uma lista de alguns elementos (de 5 a 10) que você incluiria em uma descrição nas seguintes situações:
- uma partida de futebol;
- uma estação de metrô;
- um hospital;
- uma praia.
Escolha agora alguns desses elementos e descreva-os em uma frase para situar o leitor no ambiente sugerido.

2 - Utilizando as mesmas situações acima use os cinco sentidos (ou alguns deles) - visão, olfato, audição, tato e paladar - para descrever os ambientes.

Até a próxima,
Stanze

sábado, 29 de janeiro de 2011

O Mundo Maravilhoso dos Sonhos

Nesta semana que passou resolvi experimentar um dos exercícios de estimulação do lado direito do cérebro que publiquei no artigo anterior deste blog, e decidi me aventurar no Maravilhoso Mundo Technicolor dos Sonhos.


Para isso, coloquei ao lado da minha mesinha de cabeceira bloco e caneta e anotei, sempre que pude me lembrar, os sonhos – ou trechos deles – que tive durante a semana.

A experiência foi estimulante e interessante. As imagens quebradas vinham à minha mente como flashes e, posso confessar, que às vezes senti dificuldades em registrá-las no papel de maneira rápida para não perder a visão da noite anterior, com seus detalhes, sons e cores.

Tiveram alguns dias, sim, em que nada me veio à mente na hora em que acordei. Era como se eu não tivesse sonhado. Mas isso não teve importância no conjunto do exercício. O caleidoscópio de imagens e acontecimentos que eu obtive nos outros dias já era maravilhoso.

Alguns dos sonhos foram meio caóticos, misturando momentos de ficção ou atos de heroísmo com pequenas coisas pé-no-chão. Outros foram serenos, imagens incompletas de ações normais do dia-a-dia. Algumas sequências desconexas, algumas vezes diálogos completos.

Os sonhos mais fascinantes, enretanto, foram aqueles que me trouxeram imagens e lugares da infância, como minha casa no bairro do Anil em São Luís. Acreditem ou não, ao acordar eu ainda podia sentir o vheiro da natureza exuberante e das árvores frutíferas que coloriam o quintal da nossa casa-sítio. O Anil sempre foi para mim sinônimo de liberdade, árvores, imensidão e férias.

O exercício no todo foi extremamente satisfatório. Meu lado direito não me decepcionou e, ao contrário, me proporcionou muito material para escrever e pensar.

Pretendo agora realizar o exercício da associação de palavras, o Rico Cluster. Relatarei depois os resultados que obtiver.

E vocês, experimentaram algum? Se sim, gostaria de ouvir o que obtiveram e trocar experiências.

Até a próxima

Stanze

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Inspiração espiritual

Hoje vou fazer aqui uma experiência que venho tentando experimentar há algum tempo. Um dos meus estudos e hobbies é a cartomancia. Muitas pessoas consideram a cartomancia como pecado e coisa do capeta. Na verdade, a cartomancia, pelo menos para mim, é somente um instrumento que permite elevar a minha intuição e percepção próprias e do mundo que me cerca.

Resolvi então utilizar essa energia e saber cósmico na literatura. Para a primeira experiência utilizei o Baralho Cigano. Este baralho é diferente do Baralho Cigano que conhecemos no Brasil, baseado nas cartas utilizadas por Madame Le Normand. O Baralho Cigano que utilizei, por causa da expressividade das imagens representadas nas cartas.


Embaralhei e retirei do monte, sem ver, três cartas. As cartas selecionadas foram (infelizmente não consegui imagens das cartas para mostrar):

Pensador - mostra um jovem sentado em um banco, com um olhar pensativo e melancólico;
Oficial - mostra um policial vestido como um gendarme francês;
Acidente - mostra uma casa pegando fogo, com uma mulher e uma criança sendo socorridas por bombeiros.

Como para a minha experiência não interessa realmente o que as cartas significam ou não, passei a me concentrar somente nos desenhos e no que eles me traziam à mente. Imediatamente imaginei o seguinte tema para um futuro conto ou história:

- um jovem está seriamente envolvido com a polícia e algum acidente causado por ele ou não. Seriam a mulher e a criança sua família? Elas pereceram no fogo? Foi ele o culpado? Foi alvo de uma vingança? Está sendo suspeito?

Somente nesses poucos questionamentos já há material suficiente para um bom enredo.

Fiz a mesma experiência com o Tarot. Eu gosto muito do Tarot da Nova Visão porque ele traz as figuras conhecidas do Tarot invertidas, ou seja, as figuras estão de costas e tem-se a impressão que vemos o mundo pela visão das cartas.

Procedi da mesma maneira e selecionei três cartas (podem ser mais cartas, se quiserem). As cartas que tirei foram:

7 de Espadas - que mostra um homem carregando consigo de modo suspeito 5 espadas e deixando duas para trás;
4 de Copas - mostra uma pessoa encostada em uma árvore com 3 cálices ao seu lado e um quarto lhe sendo oferecido por uma mão. Ela está ignorando essa mão e observando somente um cavalo branco alado que voa em sua direção;
O Arcano Maior XXI que representa o Mundo - mostra uma mulher dentro de um círculo formado por louros, segurando dois cetros.

Ignorando o real significado das cartas concentrei-me novamente nas imagens. A idéia que me veio à cabeça foi que a pessoa sentada perto da árvore era uma mulher que estava amorosamente decepcionada. Nada que lhe diziam ou ofereciam valia a pena. Ela pensava somente em algo inatingível naquele momento. O homem fugindo com as espadas seria aquela pessoa na qual ela pensava. Ela estava grávida (o Mundo representado pela figura no meio do círculo como um útero). Esta gravidez era desejada ou não? Eles seriam casados? Ou somente ele seria casado? Ele teria desaparecido por causa da gravidez?

E por aí vai até onde sua imaginação permitir. Achei um exercício magnífico para desbloquear a mente e criar novas possibilidades de enredos. E, para quem acha que essas cartas sejam profanas, esse exercício pode ser feito com figuras aleatórias e selecionadas ao acaso. O interessante, porém, é selecionar as figuras aleatoriamente, pois isso permite que a mente seja pega de surpresa e seja forçada a criar do inesperado.

Até a próxima,
Stanze

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O balanço do cérebro

Todos nós já ouvimos falar dos dois lados do nosso cérebro: o lado esquerdo racional e o direito intuitivo. Frequentemente no dia a dia usamos mais o lado esquerdo,  que nos dá direção e ajuda a nos organizar, enquanto deixamos o lado direito, mais criativo e espontâneo, "de lado".

Todo escritor tem que saber balancear esses dois lados para produzir algo legível e ao mesmo tempo excitante. O lado direito é o estímulo do escritor, de onde sai a imaginação, a criatividade. Só que é o lado esquerdo que transforma essa xplosão de criatividade em algo ordenado e objetivo para que o leitor possa entender e visualizar a criatividade do escritor. Por outro lado, somente o uso técnico do lado esquerdo não consegue passar para uma obra sua parte mais interessante: a creatividade e imaginação. Não há produção sem os dois lados.

Em uma revista do Writer's Digest li uma reportagem interessante sobre o balanço do cérebro e alguns exercícios interessantes para estimular o nosso lado direito.
  • Classic Rico Cluster (Tarefa Clássica Rico) - escreva uma palavra. Faça um círculo sobre ela. Escreva outra palavra ou frase que lhe vier à cabeça. Circunde-a. Trace uma linha conectando a segunda palavra com a primeira. À medida em que for escrevendo novas frases ou palavras ligue-as sempre com outra palavra, seja a primeira ou qualquer outra que veio depois, tentando achar uma conexão entre elas. Esse é o trabalho do lado direito. Agora o esquerdo só tem que montar os textos ou idéias com as ligações feitas;
  • Cagean Chance Operations (Operações Cagianos do Acaso) - John Cage dizia que para se atingir o verdadeiro acaso tinha-se que ter um plano. Pegue seu livro favorito e a cada 10 páginas dele escreva a primeira palavra completa que existir na página selecionada. Estude sua lista de palavras ao acaso e veja se descobre padrões entre elas. Não? Então pegue a sua favorita e a use para uma Tarefa Rico mencionada no primeiro exercício;
  • The Vaughnean Doodle (A Criatura Vaughniana) - Michael J. Vaughn é escritor e desenvolveu esse método para balancear os dois lados do cérebro. Desenhe uma série de linhas que se interceptam como estradas em um mapa rodoviário (não pense muito). Quando elas começarem a tomar forma coloque alguns elementos faciais, como olhos, boca, nariz, orelhas. Estude agora a criatura que você criou e escreva sobre ela: quem é, o que tem feito, como se sente - ou use-a apenas como um personagem em uma história;
  • The Amazing Technicolor Dreambook (O Deslumbrante Livro de Sonhos em Technicolor) - mantenha um lápis e um bloco de notas em sua mesa de cabeceira. Imediatamente após acordar escreva tudo que puder lembrar de seus sonhos. Nada tem que fazer sentido - esse é somente a maneira de seu lado direito do cérebro processar as lembranças do dia.   
Se alguém tentar uma dessas técnicas eu gostaria de ouvir os resultados.

Até a próxima
Stanze   

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Memorizando

Estou de volta após umas maravilhosas férias em Portugal e Espanha. Nesse período tive a oportunidade de visitar locais interessantíssimos, cheios de energia. Pequenas cidades com histórias fortes e passados presentes.

Memorizar significa fixar algo na memória, através de imagens, repetições ou até imaginação. Memória é também lembrança, recordação. No Inspiracionando de hoje quero provocar a memória de vocês através de algumas fotos tiradas nesses lugares pelos quais passei. Lugares como Idanha-a-Velha em Portugal em que a população jovem se reduz a 2 pessoas. Ou como Toledo, na Espanha, com suas pontes incríveis e atmosfera mística. Monsanto e Sordelha, ambas em Portugal, cidades praticamente museus, em que se respira saudade de tempos idos, e onde pode-se sentir as histórias encrustradas nas pedras que as formam e rodeiam.






Um casal de idosos, arabescos nos edifícios e pontes, ruas de pedra vazias, tudo isso nos traz visões de um passado próximo ou distante e, sobretudo, inspiração para muitos escritos.

Até a próxima,
Stanze  

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Pequenos "prompts"

Em inglês usa-se muito o termo "writing prompt" para designar idéias que ajudam na inspiração. "Prompt" significa várias coisas, mas neste sentido quer dizer "rápido, imediato, algo que incita".

Hoje, e de vez em quando, postarei aqui alguns "prompts" para incitar a imaginação de vocês. Não precisam ser necessariamente usados para escrever, mas também para refletir, meditar ou somente apreciar. Se forem escrever usando as imagens ou frases, aconselho a agir de maneira impulsiva, ou seja, peguem lápis e papel e deixem as palavras fluírem de maneira natural. Correções e a utilização de palavras bonitas podem ser feitas depois. O importante é não perder aquele momento imediato e incitador que a frase ou imagem possa provocar.

Alguns "prompts" para hoje:

1 - Faça uma lista de cinco coisas que deseja experimentar e cinco que não pensa nem em tentar;

2 - Inspire-se na imagem abaixo:


3 - Aqui na Europa é verão, enquanto no Hemisfério Sul é inverno. Para fugir um pouco do frio ou, ao contrário, para inspirar-se nele concentre-se em:
- cheiros do inverno/verão;
- imagens do inverno/verão;
- sons do inverno/verão;
- gostos do inverno/verão;
- sensações do inverno/verão.

4 - Você e um amigo decidem entrar em um clube à noite, já fechado, para nadar. Após pularem os portões, atiram-se na piscina. É nesse momento que descobrem um corpo flutuando. E, para piorar as coisas, é de alguém conhecido. Descreva essa cena. (writing prompt retirado do Writer's Digest em http://www.writersdigest.com/)

Até a próxima e boa inspiração,

Stanze

sexta-feira, 11 de junho de 2010

E a bola rola!

Hoje a Copa do Mundo de 2010 teve início na África do Sul. Para os torcedores de futebol um grande evento que a cada quatro anos tem seu lugar na preferência dessas pessoas. Para muitos outros o evento passa até desapercebido, se é que isso é possível com toda a propaganda que cerca o Mundial. Mas, para um continente inteiro esta Copa é algo muito especial.

A África, que geralmente atrai olhares penosos do mundo pela sua história de guerras, fomes e miséria, provocará neste mês que se inicia hoje outros sentimentos nas pessoas: emoções, vitórias, gols e, principalmente, capacidade. A África conseguiu atrair para si um espetáculo mundial, coisa de países ricos, desenvolvidos ou pelo menos em desenvolvimento. E está mostrando ao mundo que tem um povo bonito, inteligente, capaz e muito, muito orgulhoso do seu Continente, como as imagens de Mandela e Desmond Tutu deixam ver.

Para o Inspiracionando de hoje eu convido os autores em aspiração como eu a entrarem no mundo dos esportes, dos desafios, das derrotas e vitórias, da superação de obstáculos e do prazer de participar. Inspire-se nos jogos, mas não se limite ao futebol. A história dos esportes é um campo cheio de inspirações.

Algumas idéias para aquecer os miolos:
1-imagine que seu personagem treinou por muito tempo para participar de uma competição mundial e no último instante se contunde e não pode participar;
2-imagine um personagem que fica de fora de sua última competição como profissional porque seu país boicota o evento;
3-o seu personagem naturalizou-se por motivos políticos e agora tem que enfrentar seu país de origem;
4-meia hora antes de uma importante competição o seu personagem recebe uma notícia trágica;
5-seu personagem vence uma competição apesar de todas as dificuldades.

Boa Copa e boa inspiração!
Stanze
 

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Um olhar de escritor

Visitando hoje uma feira de produtos e coisas da Itália tirei a inspiração para o texto desta sexta. Lembrei-me, ao passear pelos stands e ver a "praça Venezia", de dois exercícios que fizemos em Veneza durante um workshop de literatura. O primeiro consistia em passear pela cidade, que naquela época estava apresentando uma exibição de Arte Moderna a céu aberto, com esculturas espalhadas por toda a parte, escolher um visual e escrever sobre ele.

Eu me apaixonei por uma face enorme, deitada de lado no chão, oca na parte de trás e com um olhar vazio na parte da frente. Dessa visão, e com a idéia do exercício na cabeça, eu criei este texto, que permaneceu até hoje como um borrão (os textos que se seguem foram traduzidos a grosso modo dos exercícios originais em inglês, o qual foram realizados na maioria das vezes em 15 minutos):

"Tenho caminhado pelas ruas de Veneza, seguindo o guia turístico que tenho nas mãos. A Ponte Rialto, pendurada sobre o Canal Grande, cheia como sempre dos turistas atraídos pelas barracas de souvenirs. Passei pela Piazza San Marco e os sons da orquestra tocando ao vivo me fez parar. Senti em minha boca o sabor do Valpolicello que dividi com meu pai há 10 anos. Nós tínhamos então andado de café em café seguindo a próxima orquestra a tocar. Deixei que as lembranças desaparecessem vagarosamente com as últimas notas do piano antes de retornar à minha lista de atrações.
No meu caminho para a Academia eu vi as cabeças da Bienal. Parei para observá-las. Elas não faziam parte da minha lista-de-coisas-para-ver mas estavam lá e eu tinha que vê-las. Assim como certos momentos na minha vida elas estavam simplesmente lá, deitadas, impossíveis de serem ignoradas. De compromissos em compromissos que moldam a nossa vida, as cabeças tinham aparecido como os momentos que surgem do nada e, como elas, também são vazios e precisando ser preenchidos. Momentos que havia ignorado até então, como se foram idéias daquelas cabeças ocas. Joguei fora o meu guia. Já não era mais ncessário. Eu sabia agora. Eu havia vindo a Veneza trazida por aquelas cabeças."

O segundo exercício consistia em sentarmos numa praça e observamos as pessoas à nossa volta. Deveríamos escolher alguma e escrever. A idéia era observar o momento em que a pessoa se revelasse, mostrasse alguns hábitos e nos tocasse como escritores. Eis o que surgiu da minha caneta ao observar uma senhora que caminhava vagarosamente se apoiando pelas paredes:

"Um passo após o outro. Uma pausa. Então um movimento vagaroso para ajustar a bengala. Seu andar difícil sustentado pela mão que se apóia na parede. Mais quatro passos. Outra pausa. O caminho longo não era mais longo que sua própria vida. Seu corpo frágil, coberto por um casaco comprido, tornava-se pesado pelos anos. Ela caminhava devagar, tocando as paredes da sua velha Veneza, sentindo sua textura numa troca empática de experiência. 'Você é mais velha do que eu, mas viverá mais', ela deve ter pensado.
Ela caminhou por entre as mesas de um restaurante espalhadas pela praça, mais devagar ainda agora, já que perdera momentaneamente o apoio das suas paredes amigas. Ela atravessou sem olhar as faces dos clientes. Então, encontrando novamente suas paredes, ela sorriu. Pessoas estranhas a assustavam, mas não as paredes. As pessoas vivem e morrem, como muitas haviam feito em sua vida. Mas não as paredes. Elas estarão lá mesmo depois que ela se vá. Elas estarão lá para sempre."

Talvez aquela senhora não fosse de Veneza, nem tampouco andasse sempre se apoiando nas paredes. Talvez ela não estivesse pensando em nada ou fosse triste ou alegre. Não importa. No momento em que ela começou a caminhar meu olhar foi atraído para sua figura. Ela, naquele momento, se mostrou para mim. E essa era a idéia. Criar do visual.

Esta técnica pode ser repetida de várias maneiras, através de fotos, vídeos ou mesmo pessoas. Um escritor deve ter um olhar especial e ver além do que está na sua frente. Pegue fotos, observe pessoas, tente descobrir o que está por trás de um rosto, de um gesto ou de uma imagem. Crie!

Termino hoje com algumas dicas interessantes que me foram passadas pela minha professora em Veneza.

1-Não tenha medo de mostrar a si próprio;
2-Brinque de teatro, ouse viver a vida dos outros;
3-Não aceite nada como terminado. Mude-o;
4-Procure flores em lugares secos;
5-Se sonhar com algo, escreva;
6-Quando estiver escrevendo sobre determinado assunto, crie um clima: música, imagens, cheiros;
7-Continue mesmo que pareça estranho;
8-Tente criar anjos e demônios com a mesma intensidade;
9-Se puder, viaje o máximo que puder;
10-Transforme suas más experiências em grandes personagens ou histórias;
11-Faça com que um minuto a mais valha por uma hora.  

Até a próxima,

Stanze


    

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Espelho, espelho meu...

...existe alguém mais completo do que eu?

O meu pai possuía um sapato que ele dizia ser de cromo alemão e pelo qual tinha um misto de respeito e orgulho. Esse sapato era usado em todas as ocasiões importantes de sua vida e era algumas vezes motivo de discussão entre ele e minha mãe, que preferia que meu pai usasse algo mais novo, ao que ele retrucava dizendo que aquele era de cromo alemão e, portanto, inigualável e insubstituível.

Desse fato posso constatar que meu pai era conservador e tradicionalista, além de amante das coisas boas. Da mesma forma passamos para os leitores algumas características internas dos nossos personagens através de sua aparência exterior.

Já comentei em artigos anteriores sobre a importância de se conhecer os nossos personagens. Hoje quero dividir alguns exercícios e idéias sobre a apresentação física desses personagens dos nossos contos e histórias. Como escrevi, e é sabido por todos, um personagem é alguém que conhecemos bem, às vezes a fundo, às vezes superficialmente, em casos de personagens secundários. Nem tudo que sabemos sobre eles precisa ser trazido à tona em um romance, mas é necessário que nós autores o conheçamos bem. 

Uma das técnicas existentes para que se tenha sempre em mente alguns aspectos essenciais dos nossos personagens é o que em inglês chamamos de "character's bio", ou seja, uma espécie de ficha contando dados e fatos sobre seu personagem.

Hoje vou considerar neste artigo somente a descrição física e roupas. Quando você cria um personagem para a sua história ele deve ser consequente com o enredo. Imaginem por exemplo uma história em 2010 sobre um veterano da II Guerra Mundial que o descreva como tendo cabelos loiros, porte esbelto e atlético, etc... esse veterano tem no mínimo uns 80 anos. Espera-se pelo menos rugas, cabelos brancos, andar pausado, talvez meio curvado. A não ser que você esteja escrevendo uma história de ficção científica e o seu personagem é um viajante do tempo ou encontrou a Fonte da Juventude não dá para encarar o esbelto de cabelos loiros como um veterano da II Guerra em 2010!

Para criar a sua ficha você pode simplesmente imaginar os detalhes que quiser ou copiar alguma ou várias pessoas. Um exercício interessante é sentar numa praça, bar ou café, com seu caderninho de anotações e observar. Olhe as pessoas que passam ou que estão no mesmo local. Como elas estão vestidas? Como elas se parecem? Têm algum tique, alguma mania? Têm algum defeito físico? O modo como andam demonstra segurança, timidez? A roupa que vestem é sóbria, audaciosa, na moda ou tradicional? Anote tudo que achar interessante e depois componha um personagem com esses dados.

Sua ficha pode parecer assim:
Nome:
Sexo:
Idade:
Altura e Peso:
Cabelo:
Rosto:
etc,etc,etc...

e também,

Nos finais de semana ele/a gosta de vestir:
Em casa ele/a prefere usar:
Sapatos velhos são algo que ele/a ama/detesta/usa porque não tem opção:
etc,etc,etc...

Agora vamos apresentar esse personagem ao mundo. Hoje em dia, com a dinâmica das coisas, televisão, internet, torpedos, celular, etc, o leitor atual não gosta de muitas descrições e detalhes. Depois, uma das regras básicas da literatura é: MOSTRE, NÃO CONTE. Por isso, seja imaginativo ao apresentar seu personagem à sociedade. 

Compare estes exemplos:

Exemplo 1: descrição direta
João era gordo e tinha olhos melancólicos.

Exemplo 2: descrição indireta
João acomodou-se no banco do ônibus como pôde. Não estava confortável e sentia que metade de seu corpo espremia o seu vizinho. Olhou melancolicamente como se se desculpando pelo incômodo que causava.

Exemplo 3: descrição indireta por terceiros
Miguel espremeu-se o mais que pôde na direção da janela. Aquele homem ocupava o banco inteiro e avançava para o seu espaço. Olhou-o com uma leve irritação, mas seus olhos tristes lhe sustaram as palavras. "Eu posso resistir um momento, enquanto esse homem tem que conviver com situações como essa o tempo todo",  pensou, virando o rosto para a janela.

O que lhe parece melhor como leitor? Nos exemplos 2 e 3 não usei a palavra "gordo" que é a característica principal de João, mas ficou claramente demonstrado que ele se tratava de uma pessoa grande e, pela reação causado no personagem do número 3, está óbvio que se trata de uma pessoa volumosa.

E assim também se trabalham as roupas dos personagens. O guarda-roupa é uma fonte de características e qualidades a serem desenvolvidas e exploradas. Dê uma olhada em seu próprio guarda-roupa e veja o que as suas roupas e acessórios lhe dizem sobre sua própria personalidade. Imagine roupas e vista seus personagens com elas. Veja como eles se parecem. Troque as roupas e veja o que cai melhor. Imagine-se numa boutique variada em que todo um guarda-roupa se encontra à sua disposição: roupas antigas, roupas exóticas, extravagantes, conservadoras, futurísticas. Viaje nesse desfile e dê vida a seus personagens.

Só um detalhe tem que ser observado: nada de exageros. Lembre-se que seu personagem é uma pessoa real e, por mais exótica que ele seja, tem que ser consistente e realista para que o leitor se identifique e viva intensamente sua história.

Até a próxima,

Stanze  

sexta-feira, 5 de março de 2010

E Se Houver Uma Pedra no Meio do Caminho?

Um dos maiores medos que aflige todo escritor é o chamado bloqueio (writer’s block). Imaginamos um personagem, criamos e desenvolvemos suas feições, caráter, maneiras, aparências, lhe damos um mundo e uma história mas, de repente ...

“...no meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho...”
(Carlos Drummond de Andrade)

Nosso personagem olha para um lado e para o outro. Essa pedra é tão grande que tapa a visão do outro lado, esconde o horizonte e cresce, cresce e cresce. Nosso personagem nos olha, levanta os braços, coça a cabeça e nos pergunta:

E agora? Tira essa pedra do meu caminho porque eu quero passar e continuar a minha história.

E agora?, pergunto eu. Como podemos dizer a ele que a história não existe exatamente porque a pedra se colocou no meio do caminho?



Essa pedra um dia aparece para quase todos os escritores.E às vezes não é uma só, mas várias pedras, que surgem na mesma ou em diferentes histórias. Para deslocar essa pedreira toda é interessante ter algumas alavancas. Uma delas é a técnica do E SE?


Lá vai nosso personagem. Ele é um aventureiro e repórter fotográfico, gosta de viajar e explorar lugares exóticos. Um dia ele.... Numa viagem ele.... e agora? A tal da pedra apareceu e as idéias sumiram. Peguem a alavanca E SE? e cutuquem a pedra até que se mova e desobstrua o caminho.

E SE o fotógrafo se apaixona por uma moça que não gosta de viajar?
E SE numa viagem ele pega uma doença estranha e tem que ficar imobilizado?
E SE ele ficar cego num acidente?
E SE ele for roubado e perder a sua câmara com as mais raras fotos?
E SE ele descobrir um tesouro secular?
E SE ele encontrar uma passagem misteriosa para um outro mundo?

Brincando com a alavanca do E SE nós até podemos mudar completamente o rumo da narrativa. O que seria inicialmente uma história de aventura abre caminho para um romance, ou uma ficção científica ou um drama. As possibilidades são infinitas e a alavanca pode ser utilizada em qualquer momento do processo da criação.

Lembrem-se que Arquimedes só queria uma alavanca e um ponto de apoio para mover o mundo. Nós escritores precisamos de um pouco menos do que isso para criar um mundo.


Até a próxima


Stanze